sábado, 19 de julho de 2014




Princípios da música e do canto litúrgico

Introdução
 A música litúrgica tem características próprias. Tem diferença da música de mensagem ou da música aplicável a outros momentos celebrativos? Sim, a música litúrgica é diferente.

Para entendê-la melhor você pode consultar  “Estudos da CNBB”, nº 79, (1998): A música litúrgica no Brasil.” 
Aqui vamos destacar alguns princípios teológicos, litúrgicos, pastorais e estéticos que constam no texto Canto e música na liturgia pós-concílio Vaticano IIproduzido pelo setor “Música Litúrgica” da CNB. O artigo completo está no site da CNBB. www.cnbb.org.br. Aqui apresentamos apenas um resumo.
 Aqui trataremos de música litúrgica e canto litúrgico. Pode haver nas celebrações apenas música e não canto. Falando da música, estaremos abrangendo também o canto.   O texto produzido pela equipe da CNBB e sobre o qual queremos refletir fala sobre os dois.
             Vejamos alguns princípios teológicos do canto litúrgico:
1. Princípios teológicos do canto litúrgico
 1 – Inspiração Bíblica - Não se pode dissociar vida, música, celebração, bíblia. Pode-se? Não. É na intuição do Mistério de Cristo no cotidiano das pessoas e grupos humanos, que o autor e compositor litúrgico encontra sua fonte primeira de inspiração. O Mistério de Cristo precisa ser vivido e descoberto no dia a dia.
 2- Revela, segundo a cultura, a Encarnação -  A Música Litúrgica reflete o Mistério da Encarnação do Verbo. Ela brota da vida da comunidade de fé. Em que sentido?  Ela tem as características culturais da música de cada povo ou região. A cultura influencia na preferência dos gêneros musicais.
 3 – Louvar com gêneros musicais diferentes de cada povo –  Então se pode cantar qualquer canto na missa desde que seja oração? Não. A diversidade de preferências precisa estar de acordo com o mistério celebrado e o modo como deve ser celebrado Deve-se buscar na cultura os gêneros musicais que melhor se encaixem na variedade dos tempos litúrgicos, das festas e dos vários momentos ou elementos rituais de cada celebração.
4 – Memorial – A Música Litúrgica é canto, são palavras, melodias, ritmos, harmonias, gestos, dança…  que recordam  fatos salvíficos. As melhores composições  são aquelas produzidas com forte inspiração bíblica. A música litúrgica é memorial.
 5 – Penetra o mistério  – A Música Litúrgica leva a comunidade celebrante a penetrar no Mistério de Cristo. Que significa penetrar o mistério de Cristo?  Penetrar o mistério significa aprofundar-se no conhecimento dele. A música litúrgica deve levar a isto. Deve ajudar a pessoa a se aprofundar e a experimentar qual seja a largura, o comprimento, a altura, a profundidade… do  amor de Cristo, que ultrapassa todo conhecimento (Ef 3,18-19).  No entanto, sua plenitude é incompreensível ao conhecimento humano. É um mistério que, mais do que ser compreensível, plenifica o coração.
 6 – Conforta – A Música Litúrgica brota da ação do Espírito Santo, que suscita na assembléia celebrante o fervor e a alegria. Não de certa tristeza, por vezes? Provoca também em quem canta uma atitude de esperança, apesar de todo tipo de opressão, exclusão e morte.  A Música Litúrgica expressa a esperança de um novo céu e uma nova terra (Ap 21,1; cf. Is 65,17).
             Vejamos agora alguns princípios sobre os aspectos litúrgicos e pastorais do canto litúrgico:
 2 – Princípios litúrgico-pastorais do canto litúrgico
 1- É oração com a Trindade  – A Música Litúrgica traz consigo o selo da participação comunitária em comunhão com a Trindade. Quem reza na Assembléia: Jesus ou a assembléia? A assembléia celebrante louva e agradece, suplica e oferece através do Sumo Sacerdote, Jesus Cristo.
 2- Grandes feitos – Com palavras, música e dança a assembléia celebrante proclama os grandes feitos daquele que nos chama das trevas a sua luz maravilhosa (1 Pd 2,9). É feita pelo presidente da assembléia? Esta proclamação é feita pela assembléia e por aqueles que exercem diferentes ministérios nas celebrações. Todos, conforme o momento litúrgico e o modo previsto pela igreja.
 3- Diversidade ministerial  –  Quantas pessoas exercem funções diferentes numa celebração eucarística, por exemplo?  Normalmente, são várias. Os cantores exercem uma dessas funções, junto com a Assembléia. A Música Litúrgica manifesta o caráter ministerial da Igreja. No corpo de Cristo, a Igreja, há funções diferentes, exercidas de forma orgânica e sem perder de vistas a unidade convergente. Já percebeu como na harmonia do desenvolvimento da celebração, nem todos, a todo momento, fazem tudo? Exatamente. Todavia, todos comungam a mesma fé, vibram na mesma alegria, cantam em uníssono ou de modo polifônico, se balançam no mesmo ritmo, celebram em harmonia.  Todos estão  em torno da mesma Palavra.
 4- Requer sensibilidade do animador do canto – Cabe ao animador do canto litúrgico, a  sensibilidade e a sensatez,  na escolha dos cantos, assim como no aprendizado e na utilização do repertório mais conveniente.  É sempre observada esta sensibilidade? Nem sempre, mas ela é necessária. Na escolha e formação do canto litúrgico deve-se levar em conta os ambientes sociais e culturais, as vivências e contingências do cotidiano, as possibilidades e limitações de cada assembléia. O animador do canto precisa ter a sensibilidade de perceber quando e como fazer. No culto público da comunidade cristã os corações devem estar em sintonia.
5- Reflete a comunhão de sentimentos – A Música Litúrgica é momento de solidariedade na assembléia celebrante. A solidariedade diz respeito apenas à assembléia? Não. Diz respeito a esta assembléia e à Igreja. Reflete as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo e das demais as pessoas.  Portanto, a música litúrgica é solidária.
             Vejamos alguns princípios que contribuem para a beleza do canto litúrgico.
 3 – Princípios estéticos do canto litúrgico
             A música litúrgica relaciona-se com o belo, com a harmonia, com a estética que devem auxiliar na contemplação do mistério divino.
            Vejamos alguns princípios estéticos que devem estar presentes no canto litúrgico.
 1-Utiliza elementos simbólicos – O canto litúrgico, em todos os seus elementos, palavra, melodia, ritmo, harmonia… participa da natureza simbólica e sacramental da celebração do mistério pascal de Cristo. Em que momento do ano ele é celebrado? É celebrado o ano inteiro, de acordo com o tempo do ano litúrgico e suas festas. Através de gestos e sinais, os participantes da liturgia o revivem e externam o que está no coração.
 2- Privilegia linguagem poética – A Música Litúrgica privilegia a linguagem poética. Por qual motivo? Porque é a que mais se ajusta  ao caráter simbólico da Liturgia. Não se deveria privilegiar textos explicativos? Na música deve haver um toque de poesia, de linguagem do coração. Evitem-se priorizar  textos de cunho explicativo ou didático, textos doutrinários, catequéticos, moralizantes ou ideologizantes, estranhos à experiência propriamente celebrativa. Música e texto formam o canto litúrgico.
 3- Prioriza texto –  A Música Litúrgica dá relevância ao texto, à letra, colocando tudo mais a serviço da plena expressão da palavra, de acordo com os momentos e elementos de cada rito. Há algum problema se a música é bonita mas o texto não muito adequado para certo momento litúrgico? Deve-se celebrar de modo adequado. Há textos apropriados para a abertura, para a aclamação ao Evangelho, para a Comunhão, enfim, para cada momento da celebração. Da mesma forma há textos adequados para o Advento, para a Quaresma, para o tempo Pascal e para os demais. A finalidade do texto e da música é, portanto, realçar a Palavra, emprestando-lhe sua força de expressão e motivação.
 4- Deve existir harmonia entre palavra e música – A Música Litúrgica deve realizar perfeita combinação entre o texto e a música. Em que consiste na prática esta simbiose? Consiste, entre tantos outros aspectos, que o texto seja composto de tal maneira que, no mínimo, a métrica e a cadência dos versos, bem como os acentos das palavras sejam convenientemente levados em conta pela música, evitando-se descompassos, desencontros e dissonâncias entre o embalo da música e a cadência dos versos ou os acentos de cada palavra. Letra e música devem estar em harmonia.                       
 5- Não depende de arranjos rebuscados –  A Música Litúrgica prescinde de tensões harmônicas exageradas. É dispensável o preciosismo de acordes no acompanhamento das músicas litúrgicas. Já observou como é o cato gregoriano? Pois é. O canto gregoriano e a grandiosidade da polifonia sacra continuam sendo referenciais inspiradores para quem se dedica a fazer litúrgico-musical. Favorecem a celebração. Autores, animadores e intérpretes da música litúrgica devem favorecer a celebração do mistério de Cristo.
 6- Fidelidade à inspiração do autor – A Música Litúrgica, ao ser executada, embora se destine a ser expressão autêntica de tal ou qual assembléia, deve manter-se fiel à concepção original do autor. Essa originalidade está expressa na partitura. Não se levando em consideração o contexto em que foi concebida, corre-se o risco de se perder as riquezas originais da sua inspiração e, conseqüentemente, empobrecer-lhe a qualidade estética e densidade espiritual. Sem contar aqui certos improvisos ou invenções de intérpretes que nem sempre contribuem para a concentração da assembléia no mistério celebrado.
 7- Beneficia-se com formação litúrgica – A música litúrgica tem princípios. Precisa ser entendida, aprendida e ensinada. Entretanto, como aprender se ninguém ensina ou não se busca? É verdade. Depende tanto do interesse pessoal e como dos responsáveis. Os responsáveis por  este múnus não devem se omitir. “Quem é o administrador fiel e atento, que o Senhor encarregará de dar à criadagem a ração de trigo na hora certa? Feliz aquele servo que o Senhor, ao chegar, encontrar agindo assim!” (Lc 12,42-43). Não se pode descuidar da formação litúrgico-musical da assembléia.
 Conclusão
         O que fica da reflexão sobre os princípios que devem ser observados no canto litúrgico? Deve não ser esquecido que ele tem sua beleza teológica e estética. Com ele reza a assembléia celebrante que é nação santa, povo que o Senhor conquistou.
        Por que este princípios são importantes? Porque o canto litúrgico tem função relevante na celebração. Guiando-se por estes princípios a liturgia se torna momento de  bênção e de graça, de palavra e de silêncio, de música e celebração dos filhos em torno do Pai, com o Filho, sob a moção do Espírito Santo, celebrando o mistério pascal de Cristo.
        Podemos dizer que o canto litúrgico contribui para o tom da celebração? Sim, o canto litúrgico deve contribuir para o tom da celebração e da liturgia. Não deve desafinar.